sexta-feira, 30 de maio de 2008

Artigos.

O Índio e o Engenheiro
por Roberto Malvezzi

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A questão indígena e negra atua no tecido social brasileiro como um câncer crônico, que não mata, mas tortura e inferniza a vida do paciente de forma definitiva. É como o fígado de Prometeu, consumido por um abutre perpetuamente, mas que se recompunha quando a tortura parecia chegar ao final.

O Brasil não consegue superar essas questões porque elas são elementos fundantes e constituintes da civilização brasileira. Matar índio e lhes roubar o território, explorar e matar negro, destruir a natureza são elementos constitutivos da civilização brasileira.

São realidades do presente, não apenas do passado. O Conselho Missionário Indigenista nos diz que no ano passado 92 lideranças indígenas foram assassinadas. O conflito de Raposa Serra do Sol e o "simbólico" ataque ao engenheiro revelam que não conseguimos - definitivamente não conseguimos - superar esse pecado original da nação brasileira.

O Brasil, em determinado momento de sua história, optou por criar os territórios indígenas. Muitos criticam esse sistema, mas foi ele que ao menos preservou algumas regiões ainda com natureza original e exuberante, rica em biodiversidade, além de preservar a vida e a sócio-diversidade indígena, nas suas variadas matizes. Acontece que esses territórios guardam as riquezas que ainda não foram exploradas, não foram saqueadas. Por isso, territórios indígenas e quilombolas tornaram-se "empecilhos ao desenvolvimento".

Desenvolvimento de quem? De quê? Dessas aves de rapina que começaram devorando o pau brasil no litoral brasileiro e que não vão sossegar enquanto não derrubarem a última árvore amazônica? Hoje querem mudar a lei para derrubar 50%. Depois vão mudar para derrubar mais 30%. Em última análise, querem destruir tudo, porque não sabem fazer, não sabem ser, a não ser destruindo. Como dizia o homem do agronegócio ao agente da CPT, "quero entrar nessa floresta como um cupim, começando pela primeira árvore do lado de cá, até sair na última do lado de lá".

O problema do Xingu agora é a hidroelétrica. Agora, mas daqui a pouco pode ser uma reserva mineral, a água, a biodiversidade. Esses índios vivem sob ameaça há décadas, há séculos. O governo Lula se encarregou em tornar realidade todos os temores que havia no São Francisco, no Madeira, no Xingu e onde mais tiver obras necessárias ao capital. Até nós, que não somos parte das populações tradicionais, mas estamos a seu serviço, nos sentimos mais oprimidos nesse governo do que nos tempos dos outros presidentes pós-regime militar. Nem mesmo as compensações sociais do governo Lula anulam a angústia que se abate sobre as populações agredidas por essas grandes obras.

O sacrificialismo inerente ao capital também tornou-se constitutivo desse governo. Por isso, é possível imaginar e entender a reação dos Kayapós ao engenheiro.

Vamos ressaltar a dignidade do engenheiro na entrevista que deu à TV. Em nenhum momento fez qualquer referência desairosa aos índios. A jornalista e o meio de comunicação para o qual ela trabalha, esses sim, estavam sedentos de condenação.

Talvez o engenheiro tenha a consciência de que a agressão que ele sofreu dos índios seja insignificante diante da agressão que as corporações técnicas a serviço do capital fizeram aos índios ao longo de nossa história.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

artigos.

Uma reflexão sobre a geografia urbana em escala local


No começo do segundo semestre de 2007, orientado pelo corpo docente das Faculdades Integradas de Ciências Humanas, Saúde e Educação de Guarulhos, iniciei uma pesquisa sobre a evolução urbana do Picanço. Bairro que me acolheu ainda recém nascido. Urbanização é um tema que me atrai desde há muito tempo, me lembro do meu avô contando histórias sobre suas andanças pelo interior do Brasil, o que de certo me fez ser apaixonado por Geografia.
Além do mais, nos dias de hoje 81% da população brasileira reside nas zonas urbanas, o que torna suas desigualdades mais perceptíveis. Seja econômica, social, política, cultural ou etc.
Nosso índice de urbanização já é igual ao índice de urbanização de paises industrializados, considerando que por aqui esse processo se deu com um século de diferença. É certo que a metodologia adotada pelo IBGE para definir o que é um espaço urbano, difere da metodologia adotada por outros países, contudo, de fato somos um país urbanizado.
No nosso cotidiano de cidadão guarulhense, ouve-se falar muito em “Cidade Industrial” e em “Aeroporto Internacional”, relegando aos diversos bairros uma situação de menor importância. O Bairro é antes de tudo, o espaço das relações, “lugar onde a vida acontece”, fazendo das palavras do grande geógrafo Milton Santos, as minhas. Devemos lançar um olhar mais atento para os bairros e desconfiar de tudo que pareça ser apenas um cenário de rotina.
Essa pesquisa, dentre outras surpresas, possibilitou algumas reflexões. O transito de carros e pessoas, é conseqüência do que? Por que as ruas que antes eram também espaços de lazer, hoje tem como única função servir de passagem de carros, ou de ligação entre locais?
A conclusão surgiu ao analisar o excesso de verticalização. No Picanço ainda se encontram chácaras que marcaram um período da evolução urbana de Guarulhos, no entanto, esses espaços estão rapidamente sendo ocupados por prédios. Os terrenos que antes comportavam uma família, hoje comportam dezenas e às vezes até centenas delas. Esse novo formato de ocupação descaracteriza o bairro enquanto lugar da vivência, além de contribuir para o esquecimento de uma parte importante da nossa história. A história de uma cidade pode ser contada por sua arquitetura e parafraseando Raquel Rolnik “nunca estamos diante de uma cidade, mas sempre dentro dela”.
É preciso que se cumpra o Estatuto da Cidade, a sociedade deve exigir de fato o estudo prévio de impacto ambiental e o estudo prévio de impacto de vizinhança (Art.4, parágrafo VI), pois não são somente as áreas verdes que sofrem com essa pressão, a população cada vez mais se sente encurralada.
Novos moradores sempre serão bem vindos, mas será que o bairro vai suportar tanta gente? Será que as ruas vão suportar tantos carros?
Fica a pergunta.

José Machado de Lima Neto