Folha online - 28/08/08
por JR Minkel
O veículo Phoenix, que pousou em Marte em 25 de maio tem sido alvo de noticiários nos últimos meses, mas um novo estudo realizado na Terra revelou uma descoberta surpreendente. O Planeta Vermelho parece ter sido vítima de um choque massivo há mais de quatro bilhões de anos. Esta foi a conclusão, a que chegaram pesquisadores que finalmente mapearam as bordas do que é conhecido como ´dicotomia hemisférica marciana´.
Esse aspecto do relevo marciano ─ no qual a espessura da crosta cai de 50 para 20 quilômetros ─ é a característica mais visível da paisagem de Marte. Conhecida pelos astrônomos há mais de 30 anos é atribuída ao impacto de um asteróide que lançou no espaço parte da crosta nessa área.
No entanto, os cientistas não podiam afirmar com certeza, porque a forma exata da dicotomia não era bem determinada: Pelo menos um terço de suas bordas estavam ocultas sob uma espessa camada de rocha vulcânica de 30 quilômetros de altura ─ o segundo maior aspecto do relevo de Marte ─ conhecido como soerguimento de Tharsis.
Para revelar as verdadeiras bordas da dicotomia, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, Califórnia, utilizaram dados geológicos para investigar as estrutura da crosta baixo de Tharsis.
Dados topográficos foram combinados com variações de massa identificadas através de diferenças na força gravitacional da superfície, em busca de evidências de alterações na massa sob Tharsis.
A análise revelou uma forma arredondada, um pouco alongada medindo cerca de 10.600 por 8.500 quilômetros e cobrindo 42% do planeta. O grupo denominou-a de bacia Borealis.
“Há basicamente, apenas um processo conhecido que poderia produzir uma depressão elíptica tão grande… é um processo de impacto gigante,” adverte o cientista planetário do MIT, Jeffrey Andrews-Hanna, autor principal do artigo publicado na revista Nature.
Um complicador muito antigo, que não se ajusta à idéia de asteróide, é o fato de que um asteróide teria deixado uma cratera ou bacia de impacto circular, e a dicotomia parece ter uma forma elíptica. De acordo com um segundo estudo também publicado na Nature, mesmo o impacto de um asteróide poderia ter produzido essa forma.
Um outro grupo do California Institute of Technology (Caltech), em Pasadena e da University of California, em Santa Cruz, simularam o efeito de impactos produzidos com diferentes energias, velocidades e ângulos de chegada na crosta de Marte.
Eles verificaram que a forma recém-revelada da dicotomia coincidia com uma cratera de impacto de um asteróide com 1.600 a 2.700 quilômetros de comprimento, deslocando-se a uma velocidade de 6 a 10 km/s e chocando-se com o solo num ângulo entre 30º e 60º, sendo o ângulo de 45º o mais provável.
O estudo também joga água fria em uma segunda objeção à hipótese de impacto: os cientistas acreditavam que rocha derretida devido ao calor do impacto violento poderia ter simplesmente preenchido a bacia, apagando qualquer sinal de impacto. De acordo com nova simulação, o corpo colisor teria ejetado parte suficiente da crosta para deixar sinais de depressão.
Uma outra avaliação consistente de uma segunda simulação publicada pela Nature relata que reverberações através da crosta produzidas pela colisão, poderiam ser responsáveis por uma diminuição do magnetismo do solo marciano no lado do planeta oposto à dicotomia.
A hipótese de Marte ter sido atingido por um asteróide não era provável: crateras que pontilham os planetas internos e suas luas no Sistema Solar indicam que rochas espaciais se chocaram como bolas de bilhar quando os planetas ainda eram jovens. Um exemplo é o caso da Lua que pode ter se formado quando um objeto com as dimensões de Marte colidiu com a jovem Terra.
Esses novos estudos alimentaram a idéia excêntrica de que um impacto teria produzido a dicotomia, avaliam os cientistas planetários Walter Kiefer do Instituto Planetário e Lunar, em Houston. O próximo passo a seguir, segundo Kiefer, será procurar nas rochas marcianas diferenças químicas que indiquem que a crosta ─ na região da dicotomia ─ possa conter materiais presentes em partes bem profundas do manto e que foram soerguidas após o impacto.
O tipo de asteróide necessário para formar a dicotomia poderia se encaixar nas dimensões de rochas que formaram outras grandes crateras, como a bacia de impacto Aitken ─ no pólo sul da Lua e a bacia Hellas, no hemisfério Sul de Marte, ambas com mais de 2.000 quilômetros de extensão.
Embora os habitantes da Terra ainda enfrentem a ameaça de choques com asteróides mortos, pesquisadores afirmam que impactos superintensos ─ como o que provocou a dicotomia marciana ─ desapareceram há muito tempo, deixando somente cicatrizes para contar sua história.
“O Sistema Solar primordial era um lugar muito perigoso,” comenta Andrews-Hanna, “mas se não tivéssemos impactos, os planetas não seriam como são.”
Walerie – 2º ano – Geografia - Figuinha
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